Precisamos falar sobre o Kevin

Eu particularmente não gosto de ler críticas ou comentários sobre um livro sem que eu tenha lido-o. Não sinto o mínimo interesse em saber o que alguém pensa, suas considerações, seus sentimentos, a respeito de um livro que eu não conheça. Não porque eu seja egoísta a ponto de achar que só eu tenho direito a fazer minhas considerações para o mundo, nem porque sou ignorante a ponto de achar que só posso ter uma opinião sobre algo se eu vivê-lo. Mas sim porque o grande prazer de ler um livro é ter em mãos um mundo desconhecido, é ser pego de surpresa num determinado capítulo e repensar tudo que você havia lido até então, se decepcionar profundamente ou ter todas suas expectativas superadas. O desconhecido é o ingrediente essencial para o interesse, e esse elemento passa a ser não tão desconhecido assim quando você sabe de antemão algum detalhe importante sobre ele.

Em Precisamos Falar Sobre o Kevin, fiquei um pouco perplexa com a relação conturbada que existe entre mãe e filho, e confesso que desde o começo do livro eu tentei criar respostas e diagnósticos prontos para minhas dúvidas: ela ama o filho ou não ama? Tem alguma coisa boa dentro desse menino, ou ele é pura maldade? Será que isso é o que realmente aconteceu ou a visão pós quinta-feira a fez mudar alguns fatos descritos para o marido? Mas felizmente (ou infelizmente), apesar da nossa busca incessante pelos porquês, nem tudo pode ser explicado. O ser humano não pode ser explicado. Ter colocado no mundo uma criatura que assassinou outras 11 é um sentimento que não dá para ser explicado.

“Depois de registrar a compulsão social a extrair alguma lição geral e incisiva de todo surto assassino imbecil, ele deve ter analisado minuciosamente as perspectivas das consequências do dele. Qualquer um que tentasse retratá-lo como a vítima negligenciada de um casamento em que ambos os pais só pensavam em suas carreiras teria uma batalha insana. Ele não era membro de nenhum culto satânico. Ele não era alvo de caçoadas, de modo que a história do pobre desajustado, perseguido ou do “temos que fazer alguma coisa para acabar com a intimidação nas escolas” não iria muito longe. Não havia criado um site homicida na internet nem escrito redações sobre explodir a escola. O melhor de tudo era que, se ele conseguisse levar a cabo toda a sua proeza, a mãe dele e todos os amigos sentimentalóides que a cercavam não poderiam exibi-lo diante do Congresso como mais um caso clássico em defesa do controle das armas de fogo. Em suma, ele teve a intenção de garantir, da melhor maneira possível, que a quinta-feira não significasse absolutamente nada”.

2011: The Beaver

Um filme que representa 2011 para mim: The Beaver.

Tive mudanças inesperadas no roteiro da vida, que num primeiro momento me deixaram totalmente perdida e desacreditada na minha profissão, mas depois se mostraram apenas degraus necessários para alçar vôos maiores. E, mais uma vez, tive a certeza absoluta de que eu tenho que ter muito cuidado com o que peço. Não tenho lâmpada mágica mas os meus desejos sempre se realizam…

Filosofias à parte, 2011 foi um ano muito cinematográfico pra mim. Terminei um roteiro que há tempos estava relutando pra sair, e inesperadamente participei de um projeto que eu não botava muita fé, Obrigado Doutora, mas que rendeu muito mais do que eu poderia imaginar: 9 prêmios no 48 hour Film Project Brazil + seleção para representar o Brasil nos EUA + chance de ser exibido em Cannes + o melhor de todos os prêmios: a confiança no meu trabalho definitivamente de volta.

Como no filme, as marcas sempre ficam, e com elas as lembranças, as dores, os medos. Mas o importante é dar a volta por cima, acabar com o nosso pior inimigo (nós mesmos) e ter força e coragem para se dar mais uma chance.

Vem, 2012, que eu te quero seu lindo.

Anunciação

Não peço que goste. Apenas leia. Bem, bem devagarzinho.

Se a hora, pequena réstia
Retalho sob a nuvem dissipa-se
Em gotas gordurosas o céu filtra
O que o mar bebe, tempera

Teu idílio irrompe
E deitamos nus nas folhas brancas
E riscamos os lençóis
Conforme vocabulizam, conforme bulinam
E viram versos, viram línguas

Anunciação!

Esse é o manifesto antropofrágil
Em agradecimento ao entretenimento em detrimento
Do que era uma pedra no caminho, do verso intransitivo

E é o manifesto pró-picaristas
A descendência naturalista
Das novas desordens há já bem vistas
Nossa gente humilde armada
Nosso gatilho em disparada
Nosso retiro

Essa é a nossa rua inunda
O que a marginalidade funda
Nosso pavio curto
Nossa bomba de chocolate
Essa é a nossa livraria
Cheia de crimes do dia a dia
Cheia de amores e beijos

Essa é a nossa cultura
A paisagem dura
O tapete vermelho onde o povo samba
Uma feira de artes na beira da tarde
Essa é a nossa parte
As agrárias que nos cabe nesse latimúndio

Essa é a nossa raça plura
As novas revoluções sob a mesma impostura
E pra não dizer que não falei
Aqui jaz um deserto, aqui perto
É jardim

(Gero Camilo, “Anunciação”, Canções de Invento)

Experiências inexplicáveis

Eu sempre tive mais facilidade de escrever do que em falar. As pausas permitidas, o tempo para pensar e as limitações do suporte me ajudam na hora de transmitir algo. Me sinto segura sabendo que existe uma tecla para apagar. Que existe uma possibilidade de recomeçar e reorganizar meu pensamento de forma mais clara.
Mesmo assim, transmitir uma sensação através de palavras é uma tarefa (quase que) impossível. A gente bem que tenta, mas no fundo só usamos meras palavras pertencentes ao nosso domínio para chegar perto de explicar o que é, talvez, inexplicável.
Hoje aconteceu comigo uma dessas situações. As “inexplicáveis”.
Venho de dias difíceis, andava me sentindo fraca, vomitava tudo que comia, estava sem ânimo para nada. Fui até o hospital para realizar um procedimento. Tudo ocorreu bem, e ao final já estava me sentindo bem melhor. “Sente enjôos ou tontura?” perguntou o médico. “Não…” Imediatamente comecei sentir a vista apagar e as coisas ficarem mais lentas ao meu redor. “…opa, agora estou”, completei.
De repente senti que eu estava suando, muitos flashes passavam pela minha cabeça. Eu vi pessoas, situações, ouvi sons, estava perfeitamente consciente de tudo. Eu conhecia aquelas pessoas, e reconheci algumas situações que me eram familiares. Muitos flashes. Eu sentia minha cabeça doendo, e meu corpo muito quente. Aos poucos fui me sentindo um pouco perdida, aquele universo passou a não ser mais familiar para mim. Por um momento pensei: “o que está acontecendo?”. Então tudo ficou mais nítido, e vi o rosto do médico. “O que ele está fazendo aqui? Onde estou?” Vi uma enfermeira do lado dele, vi o aparelho do raio-x. “Ela está voltando”, ouvi o médico dizer. E imediatamente entendi que eu estava desmaiada e tinha acabado de acordar. No mesmo momento esqueci de tudo o que eu tinha visto. Não lembro do rosto daquelas pessoas. Não lembro de nenhuma cena que vi. Só lembro dos flashes. “Está tudo bem, você ficou inconsciente por 3 ou 4 segundos”. Para mim, durou muito mais tempo, horas e horas. Me recuperei bem, e fui embora.
Fiquei chocada, de um jeito bom. Queria conseguir passar de novo por esse momento, ver realmente tudo que vi e ter a consciência real do que é aquilo.
Foi como um sonho. Mas um sonho real.

Grandes Ideias -> Charity: Water (1)

Dizem que quem procura, acha.
Ultimamente, por estar envolvida em um trabalho social, tenho pesquisado muito sobre o tema. Achei muita coisa interessante, ideias geniais que dão origem a projetos incríveis, mobilizando pessoas e fazendo a diferença em muitas vidas. Esse tipo de coisa te faz refletir sobre sua própria vida, seu papel nesse mundo ridiculamente frágil e o sentido de você estar aqui, agora. São cases que valem a pena ser compartilhados, por isso crio essa série de posts iniciando hoje: Grandes Ideias.

Charity: Water
Scott Harrison (veja aqui) era um cara comum de Nova York que ficou sensibilizado depois que viajou para a África e viu a situação precária em que viviam milhares de famílias, sem saneamento básico, bebendo água totalmente inadequada para consumo.
Junto com alguns amigos, Scott fez uma campanha na sua festa de aniversário de 31 anos, em setembro de 2007: pediu que cada convidado lhe desse 20 dólares ao invés de presente. Nessa noite, conseguiu que 700 pessoas contribuissem com a sua campanha e juntou $14000. Mandou o dinheiro para um campo de refugiados em Uganda, que construiu 6 poços para abastecer a comunidade local.
Empolgado, recrutou voluntários, fundou a Charity: Water e juntos alugaram um pequeno escritório para trabalhar. Fizeram diversas campanhas e intervenções em Nova York mostrando a péssima qualidade da água que os africanos bebiam, com o objetivo de sensibilizar as pessoas, fazer o projeto crescer e juntar cada vez mais colaboradores. Divulgaram a ideia em todos os cantos da cidade, lançaram um site, passaram a vender cartões postais, garrafinhas de água e outras lembranças para arrecadar fundos. Os amigos e amigos de amigos foram passando a ideia para frente nas redes sociais, fizeram parcerias com empresas, lojas, igrejas, escolas.
1 ano depois, em setembro de 2008, Scott foi além: na sua festa de 32 anos pediu que cada um lhe desse 32 dólares, e divulgou a ideia para que todos os aniversariantes de setembro fizessem o mesmo. Recebeu doações de diversos lugares do país, de pessoas totalmente desconhecidas, e ao todo arrecadou $ 150 mil.
Com esse dinheiro, a Charity: Water cresceu e construiram, além dos poços e sistemas de saneamento básico, hospitais e escolas no Quenia.
Nos anos seguintes o projeto se espalhou pelo mundo e já ajudou mais de 15 países através de 10 milhões de dólares arrecadados por essa simples iniciativa de fazer as pessoas abrirem mão de seu presente de aniversário.

Lego

Mike Stimpson é programador durante o dia e fotógrafo nas horas vagas. Conforme ele mesmo se descreve: “um fotógrafo com uma fascinação bizarra por brinquedos”.
Ele teve a ideia genial de recriar fotografias famosas. Com lego.


“Moon Landing”


“Raising the flag on Iwo Jima”


“Bed In”


“Dalí Atomicus”

Além dessas recriações, ele tem centenas de fotos diversas com bonequinhos de lego, incluindo uma sessão Star Wars.
O trabalho dele está no site oficial e no flickr.

Modern Family

How you doin’? Assim como quase todas as garotas que viveram o auge da sua adolescência na década de 90, eu era viciada em Friends. Eu ria, chorava, me emocionava e me envolvia com o Chandler, a Monica, o Ross, a Rachel, a Phoebe e o Joey, assistia a todos os episódios mais de uma vez, chegando ao ponto de saber algumas falas de cor. Tipo criança assistindo desenho, sabe?

Depois da minha época apaixonada por Friends, veio a fase psico-maníaca por Lost. Locke e seus amiguinhos me fizeram perder várias manhãs de aula na faculdade, pois eu ficava noites inteiras assistindo Lost sem parar, um capítulo após o outro. Quando o sono vinha, o episódio acabava no meio de uma cena INCRÍVEL, vinha a trilha de suspense tão famosa e a tela preta escrito “LOST”. Pronto, meus olhos arregalavam e eu era obrigada a assistir o episódio seguinte. (Aos curiosos: sim, eu gostei do final de lost)

Surgiram várias outras séries candidatas à posição de “próxima favorita da Jéssica”, mas nenhuma delas conseguiu emplacar. United States of Tara, House, The Mentalist… todas falharam logo nos primeiros episódios.
Quando parecia não haver mais esperanças, apareceu Modern Family. Sem perceber, fui me envolvendo e criando uma empatia muito grande com os personagens. De repente me vi assistindo vários episódios seguidos, rindo sozinha. Rir em grupo é fácil, mas pra eu rir sozinha a piada tem que ser MUITO boa. E Modern Family consegue, incrivelmente, unir piadas boas + personagens fortes + narrativa leve, ao melhor estilo Friends, mas voltado para a questão familiar, e não de amizades.

O primeiro episódio (piloto) tem uma das melhores construções narrativas que já vi. Sutilmente as personagens são apresentadas através dos pequenos conflitos que vão acontecendo cada um dentro do seu espaço, em três núcleos aparentemente sem conexão: primeiro, a rotina da família de Phill, Claire e seus 3 filhos com personalidades tão diferentes / segundo, o velho Jay e sua esposa colombiana muito mais nova, Gloria, com seu filho Manny / e por último, o casal gay Mitchell e Cameron que acabam de adotar uma bebê do Vietnan. Diversas situações cotidianas vão acontecendo, e aos poucos começamos a entender cada um desses personagens e já criamos identificação e cumplicidade com eles. Além disso, as personagens dão “depoimentos” para a câmera (mas sem olhar diretamente para ela), como se fosse um interrogatório, uma sessão psiquátrica ou coisa assim, falando sobre assuntos relacionados ao que está acontecendo nas imagens, o que ajuda muito a construção do caráter dos personagens na cabeça do espectador. Nosso papel de assistir e entender os personagens é reforçado com esse tipo de recurso narrativo, mais próximo ao documentário do que à ficção.
Por final, descobrimos que todos são da mesma família, quando eles se juntam para visitar o novo bebê. De repente todas as peças se encaixam e, entre uma piada e outra, surgem situações hilárias dignas de uma família com pessoas tão peculiares como essa.

Acabei a primeira temporada em poucos dias, e a segunda já está no forno pra assistir.
Recomendo!

Ventura

Ventura = Sorte. Boa ou má.

Há quem acredite em santo. Há quem acredite em milagres. Eu acredito em ventura.
Uma espécie de força, impossível de se medir ou guiar.
Ela pode estar em uma unidade de tempo: um milésimo de segundo que você de repente hesitou para virar o rosto e pronto. Já foi, alguma coisa passou e você não viu, que se tivesse visto poderia ter parado para prestar atenção, o que poderia ter te levado a um caminho diferente na rua, que te faria observar coisas que antes não tinha visto, que te traria um pensamento novo e assim sucessivamente até ocasionar uma mudança na linha da sua vida. Tudo isso não aconteceu porque num simples instante você foi tocado pela ventura.
Nunca se saberá se o que deixou de acontecer seria uma mudança boa ou se traria coisas negativas. A resposta fica escondida nas infinitas devagações em que ficamos imaginando: e se…?

Basta um milésimo de centésimo de segundo, uma fração de tempo tão pequena quanto nós frente ao Universo, para que a ventura se chegue ou se vá. E não há nada nem ninguém que possa controlá-la ou atraí-la. Ela simplesmente está num ou noutro lugar, vagando por aí no meio da multidão, regida por um sopro de vento chamado acaso.

*Imagem do Flickr Balakov