Eu sempre tive mais facilidade de escrever do que em falar. As pausas permitidas, o tempo para pensar e as limitações do suporte me ajudam na hora de transmitir algo. Me sinto segura sabendo que existe uma tecla para apagar. Que existe uma possibilidade de recomeçar e reorganizar meu pensamento de forma mais clara.
Mesmo assim, transmitir uma sensação através de palavras é uma tarefa (quase que) impossível. A gente bem que tenta, mas no fundo só usamos meras palavras pertencentes ao nosso domínio para chegar perto de explicar o que é, talvez, inexplicável.
Hoje aconteceu comigo uma dessas situações. As “inexplicáveis”.
Venho de dias difíceis, andava me sentindo fraca, vomitava tudo que comia, estava sem ânimo para nada. Fui até o hospital para realizar um procedimento. Tudo ocorreu bem, e ao final já estava me sentindo bem melhor. “Sente enjôos ou tontura?” perguntou o médico. “Não…” Imediatamente comecei sentir a vista apagar e as coisas ficarem mais lentas ao meu redor. “…opa, agora estou”, completei.
De repente senti que eu estava suando, muitos flashes passavam pela minha cabeça. Eu vi pessoas, situações, ouvi sons, estava perfeitamente consciente de tudo. Eu conhecia aquelas pessoas, e reconheci algumas situações que me eram familiares. Muitos flashes. Eu sentia minha cabeça doendo, e meu corpo muito quente. Aos poucos fui me sentindo um pouco perdida, aquele universo passou a não ser mais familiar para mim. Por um momento pensei: “o que está acontecendo?”. Então tudo ficou mais nítido, e vi o rosto do médico. “O que ele está fazendo aqui? Onde estou?” Vi uma enfermeira do lado dele, vi o aparelho do raio-x. “Ela está voltando”, ouvi o médico dizer. E imediatamente entendi que eu estava desmaiada e tinha acabado de acordar. No mesmo momento esqueci de tudo o que eu tinha visto. Não lembro do rosto daquelas pessoas. Não lembro de nenhuma cena que vi. Só lembro dos flashes. “Está tudo bem, você ficou inconsciente por 3 ou 4 segundos”. Para mim, durou muito mais tempo, horas e horas. Me recuperei bem, e fui embora.
Fiquei chocada, de um jeito bom. Queria conseguir passar de novo por esse momento, ver realmente tudo que vi e ter a consciência real do que é aquilo.
Foi como um sonho. Mas um sonho real.
