Não peço que goste. Apenas leia. Bem, bem devagarzinho.
Se a hora, pequena réstia
Retalho sob a nuvem dissipa-se
Em gotas gordurosas o céu filtra
O que o mar bebe, tempera
Teu idílio irrompe
E deitamos nus nas folhas brancas
E riscamos os lençóis
Conforme vocabulizam, conforme bulinam
E viram versos, viram línguas
Anunciação!
Esse é o manifesto antropofrágil
Em agradecimento ao entretenimento em detrimento
Do que era uma pedra no caminho, do verso intransitivo
E é o manifesto pró-picaristas
A descendência naturalista
Das novas desordens há já bem vistas
Nossa gente humilde armada
Nosso gatilho em disparada
Nosso retiro
Essa é a nossa rua inunda
O que a marginalidade funda
Nosso pavio curto
Nossa bomba de chocolate
Essa é a nossa livraria
Cheia de crimes do dia a dia
Cheia de amores e beijos
Essa é a nossa cultura
A paisagem dura
O tapete vermelho onde o povo samba
Uma feira de artes na beira da tarde
Essa é a nossa parte
As agrárias que nos cabe nesse latimúndio
Essa é a nossa raça plura
As novas revoluções sob a mesma impostura
E pra não dizer que não falei
Aqui jaz um deserto, aqui perto
É jardim
(Gero Camilo, “Anunciação”, Canções de Invento)