Eu particularmente não gosto de ler críticas ou comentários sobre um livro sem que eu tenha lido-o. Não sinto o mínimo interesse em saber o que alguém pensa, suas considerações, seus sentimentos, a respeito de um livro que eu não conheça. Não porque eu seja egoísta a ponto de achar que só eu tenho direito a fazer minhas considerações para o mundo, nem porque sou ignorante a ponto de achar que só posso ter uma opinião sobre algo se eu vivê-lo. Mas sim porque o grande prazer de ler um livro é ter em mãos um mundo desconhecido, é ser pego de surpresa num determinado capítulo e repensar tudo que você havia lido até então, se decepcionar profundamente ou ter todas suas expectativas superadas. O desconhecido é o ingrediente essencial para o interesse, e esse elemento passa a ser não tão desconhecido assim quando você sabe de antemão algum detalhe importante sobre ele.
Em Precisamos Falar Sobre o Kevin, fiquei um pouco perplexa com a relação conturbada que existe entre mãe e filho, e confesso que desde o começo do livro eu tentei criar respostas e diagnósticos prontos para minhas dúvidas: ela ama o filho ou não ama? Tem alguma coisa boa dentro desse menino, ou ele é pura maldade? Será que isso é o que realmente aconteceu ou a visão pós quinta-feira a fez mudar alguns fatos descritos para o marido? Mas felizmente (ou infelizmente), apesar da nossa busca incessante pelos porquês, nem tudo pode ser explicado. O ser humano não pode ser explicado. Ter colocado no mundo uma criatura que assassinou outras 11 é um sentimento que não dá para ser explicado.
“Depois de registrar a compulsão social a extrair alguma lição geral e incisiva de todo surto assassino imbecil, ele deve ter analisado minuciosamente as perspectivas das consequências do dele. Qualquer um que tentasse retratá-lo como a vítima negligenciada de um casamento em que ambos os pais só pensavam em suas carreiras teria uma batalha insana. Ele não era membro de nenhum culto satânico. Ele não era alvo de caçoadas, de modo que a história do pobre desajustado, perseguido ou do “temos que fazer alguma coisa para acabar com a intimidação nas escolas” não iria muito longe. Não havia criado um site homicida na internet nem escrito redações sobre explodir a escola. O melhor de tudo era que, se ele conseguisse levar a cabo toda a sua proeza, a mãe dele e todos os amigos sentimentalóides que a cercavam não poderiam exibi-lo diante do Congresso como mais um caso clássico em defesa do controle das armas de fogo. Em suma, ele teve a intenção de garantir, da melhor maneira possível, que a quinta-feira não significasse absolutamente nada”.

